Novo relato denuncia práticas da Marvel com estúdios de VFX: "Nenhum cliente tem esse poder de intimidação" – Cinema com Rapadura

27 de July de 2022 Off By admin
(Imagens: Marvel Studios)

Após a conclusão da chamada “Saga do Infinito“, tem sido difícil para a Marvel reproduzir o sucesso de arrasar quarteirões alcançado com “Vingadores: Guerra Infinita” e “Vingadores: Ultimato“. Mais do que apenas boas histórias, a qualidade final dos filmes que chegam aos cinemas vem chamando atenção e angariando críticas negativas. Para filmes em que efeitos especiais são tão importantes, a parte visual tem deixado a desejar.

Agora, um novo relato obtido pela Vulture traz novas denúncias quanto à postura da megaprodutora em relação aos estúdios de efeitos especiais em Hollywood. “Tive colegas sentados ao meu lado desmoronando e com crises de choro, tendo ataques de ansiedade ao telefone“, diz o funcionário anônimo de um dos estúdios que fornecem serviços para a Marvel. São vários os problemas, um deles sendo justamente a quantidade excessiva de lançamentos:

“O estúdio tem muito poder sobre os estúdios de efeitos especiais só porque tem muitos blockbusters sendo lançados um após o outro. Se você decepcionar a Marvel do jeito que for, há uma chance bem alta de você não conseguir mais esses projetos no futuro. Então os estúdios de efeitos especiais estão tentando se desdobrar para manter a Marvel feliz. […] Ela determina as datas e é muito inflexível em relação a elas, mas está mais do que disposta a fazer gravações adicionais e mudanças grandes sem alterar a entrega.”

Outro fator é a constante cobrança da produtora para que retoques e alterações sejam feitos de última hora, sob o risco de não firmar mais parcerias com o estúdio em questão caso o resultado não seja satisfatório:

“A outra coisa pela qual a Marvel é famosa é pedir muitas mudanças ao longo do processo. Então você já está sobrecarregado, mas aí a Marvel está pedindo alterações com excesso muito maior do que qualquer outro cliente. E algumas dessas alterações são realmente grandes. Talvez um mês ou dois antes de um filme ser lançado, a Marvel nos obriga a mudar todo o terceiro ato. Ela tem prazos de retorno realmente apertados. Então não é uma situação nada boa. Um estúdio de efeitos visuais não conseguiu terminar a tempo o número de enquadramentos e regravações que a Marvel pediu, então ela deu ao meus estúdio o serviço. Desde então, esse estúdio está proibido de conseguir trabalho com a Marvel.”

Se entre as primeiras fases de seu universo cinematográfico a Marvel contratava diretores com experiência em entretenimento, agora o padrão é outro. É cada vez mais comum a Casa das Ideias empregar diretores com carreira em ascensão para seus filmes e série, vindos do cenário independente e com filmes que pouco utilizam efeitos especiais. Isso prejudica o projeto desde o início:

“A maioria fez apenas pequenos filmes independentes em Sundance e nunca trabalhou com VFX. Eles não sabem como visualizar algo que ainda não existe, eles ainda não desenvolveram isso. Então a Marvel costuma pedir o que chamamos de ‘renderização final’. Conforme trabalhamos em um filme, vamos mandando imagens do trabalho em andamento, que não são bonitas, mas mostram em que pé estamos. A Marvel normalmente pede para que elas sejam entregues em uma qualidade muito maior ainda cedo, e isso leva muito tempo. Ela faz isso porque seus diretores não sabem como olhar às imagens brutas no começo e tomar decisões. Mas essa é a forma com a qual a indústria tem que trabalhar. Você não tem como mostrar algo super bonito enquanto o básico ainda está sendo definido.”

Com isso, a pós-produção também fica comprometida. Segundo o relato, diretores de fotografia não estão envolvidos nessa etapa do projeto obrigando os estúdios a até mesmo compor as cenas, algo muito além de suas atribuições artísticas e técnicas:

“Isso causa muita inconsistência. Um bom exemplo do que acontece nesse tipo de cenário é a cena da batalha no final de ‘Pantera Negra’. A física está toda desalinhada. De repente, os personagens estão pulando por toda parte, fazendo movimentos doidos como se fossem brinquedos no espaço. De repente, a câmera está fazendo movimentos que não aconteceram em nenhum outro momento do filme. Tudo fica muito caricato. Isso quebra a linguagem visual do filme.”

Segundo o relato anônimo, para que a questão seja resolvida, é preciso não só que a Marvel treine seus diretores para trabalhar com efeitos visuais e desenvolver uma visão do todo antes que ele se concretize, mas também que os próprios funcionários dos estúdios se mobilizem:

“As coisas precisam mudar dos dois lados do espectro. A Marvel precisa treinar seus diretores para que eles trabalhem com efeitos visuais e tenham uma visão mais clara logo de cara. O estúdio precisa cobrar mais de seus diretores o comprometimento que eles querem. A outra coisa é formar sindicatos. Há um movimento crescente para isso, porque ajudaria a garantir que os estúdios de efeitos especiais não tenham que assumir projetos sem considerar quais seriam os impactos. Porque, na maior parte do tempo, é você trabalhando em uma série da Marvel, e você vai trabalhar nisso cobrando mais barato só porque é legal.”

Parte dos problemas mencionados não são únicos da Marvel, segundo o artista. Cobranças e alterações de última hora acontecem com frequência, e impedem que os estúdios acomodem diversos projetos de forma simultânea. As mudanças referidas, no entanto, dariam algum poder de negociação aos estúdios de efeitos especiais:

“Alguns dos problemas que mencionei são universais a todas as séries e todos os projetos. Mas você acabaria conseguindo não ter que fazer tanta hora extra em outras séries. Você acaba sendo capaz de enfrentar mais os diretores. Quando eles dizem algo como, ‘quero assim’, você consegue responder, ‘isso não faz sentido’. Mas nem todo cliente tem o poder de intimidação da Marvel.”

Para o futuro, a situação pode ficar ainda pior, com a Marvel já tendo anunciado mais de uma dezena de novos projetos para suas fases 5 e 6, além de datas para a fase 7.